Cartão clonado? Veja como proteger apps bancários contra hackers
Autenticação em dois fatores reduz 99,9% das invasões. Aprenda a ativar recursos de segurança que bancos oferecem gratuitamente hoje.
Quase 2 milhões. Esse é o número assustador de tentativas de fraude registradas no setor bancário brasileiro apenas entre janeiro e março de 2025, segundo dados da Serasa Experian. O equivalente a uma tentativa a cada 2,2 segundos no país. Para quem acha que está seguro apenas por ter uma senha forte, os números revelam uma realidade preocupante: metade dos brasileiros foi vítima de algum tipo de golpe financeiro em 2024, com prejuízos que podem chegar a milhares de reais.
O cenário se torna ainda mais alarmante quando olhamos para os tipos de fraude mais comuns. O uso indevido de cartões de crédito lidera com 47,9% dos casos, seguido por golpes envolvendo Pix e boletos falsos, que representam 32,8% das ocorrências. A sofisticação dos criminosos digitais cresce a cada dia, com o uso de inteligência artificial para criar golpes hiperpersonalizados que enganam até os usuários mais atentos.
Mas há boas notícias nesse cenário sombrio. Especialistas em segurança digital apontam que medidas relativamente simples podem reduzir drasticamente o risco de invasão de contas bancárias e aplicativos financeiros. A chave está em adotar múltiplas camadas de proteção e manter-se vigilante em relação aos movimentos da conta.

A barreira de 99,9%: autenticação em dois fatores
Se existe um recurso que deveria ser obrigatório em todas as contas digitais, é a autenticação em dois fatores, também conhecida como 2FA ou verificação em duas etapas. De acordo com dados da Microsoft divulgados em relatório de segurança, 99,9% dos ataques cibernéticos poderiam ser evitados com o uso dessa tecnologia.
O funcionamento é simples, mas extremamente eficaz: além da senha tradicional, o sistema exige uma segunda forma de verificação antes de liberar o acesso. Pode ser um código temporário enviado por SMS, um número gerado por aplicativo autenticador ou até mesmo confirmação biométrica. Mesmo que criminosos consigam descobrir sua senha através de vazamentos de dados ou ataques de phishing, não conseguirão completar o login sem acesso ao segundo fator de autenticação.
A Febraban confirmou que os principais bancos brasileiros já disponibilizam essa funcionalidade. No aplicativo bancário, o recurso geralmente aparece nas configurações de segurança com nomes como "Autenticação em dois fatores", "Verificação em duas etapas" ou "Token de segurança". A ativação leva poucos minutos e pode salvar milhares de reais em fraudes evitadas.
Mas atenção: nem todos os métodos de 2FA são igualmente seguros. Especialistas recomendam evitar códigos por SMS sempre que possível, já que essa modalidade é vulnerável ao golpe conhecido como SIM Swap, onde criminosos transferem o número de telefone da vítima para outro chip. A opção mais segura é usar aplicativos autenticadores como Google Authenticator ou Microsoft Authenticator, que geram códigos offline e são muito mais difíceis de interceptar.
Cuidados essenciais ao fazer login em apps bancários
O momento do login é crítico para a segurança das contas digitais. Especialistas da área de cibersegurança recomendam nunca acessar aplicativos bancários ou fazer transações financeiras conectado a redes Wi-Fi públicas, como as de cafeterias, aeroportos ou shopping centers. Essas redes são alvos fáceis para hackers que podem interceptar dados de login.
Outro erro comum é manter a senha do banco salva no navegador ou em aplicativos de terceiros sem criptografia adequada. Embora seja tentador facilitar o acesso com salvamento automático de credenciais, isso cria uma porta de entrada para invasores caso o dispositivo seja comprometido. Para quem tem dificuldade em memorizar múltiplas senhas complexas, a solução mais segura é usar um gerenciador de senhas confiável e criptografado.
A autenticação biométrica, disponível na maioria dos smartphones modernos, adiciona uma camada importante de proteção. Digital ou reconhecimento facial devem ser ativados sempre que o banco oferecer essa opção. Vale lembrar que 71,8% dos brasileiros afirmam sentir-se mais protegidos ao utilizar biometria facial, segundo pesquisa da Serasa Experian, e o uso dessa tecnologia cresceu de 59% para 67% entre 2023 e 2024.
Golpes do Pix: como se proteger
O Pix revolucionou a forma como os brasileiros fazem transferências, mas também se tornou a ferramenta preferida dos golpistas. Dados da Associação de Defesa de Dados Pessoais e do Consumidor mostram que o Brasil registrou impressionantes 28 milhões de casos de fraudes envolvendo o sistema de pagamentos instantâneos apenas entre janeiro e setembro de 2025.
O golpe mais comum é a falsa central de atendimento. Criminosos ligam se passando por funcionários do banco, alegam uma suposta transação suspeita e convencem a vítima a fazer um Pix "para segurança" ou a fornecer códigos de acesso. A regra de ouro é simples: bancos jamais solicitam senhas, códigos de confirmação ou pedem que clientes façam transferências para "contas de segurança".
Para reduzir riscos, o Banco Central implementou em setembro de 2025 um limite de R$ 15 mil por transação via Pix para determinadas instituições de pagamento. Além disso, usuários podem configurar seus próprios limites personalizados no aplicativo do banco, reduzindo o valor máximo que pode ser transferido em caso de invasão da conta.
Outra medida de segurança importante é cadastrar chaves Pix exclusivamente pelos canais oficiais — aplicativo bancário, internet banking ou agências físicas. Sites e aplicativos não oficiais que prometem facilitar o cadastro de chaves podem ser armadilhas para roubar dados pessoais e informações financeiras.
Cartão clonado: primeiros passos após identificar a fraude
Descobrir que seu cartão foi clonado é uma situação estressante, mas agir rapidamente pode minimizar os prejuízos. O primeiro passo é bloquear imediatamente o cartão através do aplicativo do banco ou da central de atendimento. Quanto mais rápido o bloqueio for feito, menor a chance de os criminosos realizarem novas transações.
Em seguida, é fundamental contestar todas as compras não reconhecidas. Os bancos são obrigados por lei a investigar transações fraudulentas e, comprovada a fraude, devem realizar o estorno dos valores. Esse processo pode levar alguns dias, mas a instituição financeira tem o dever de proteger o consumidor nesses casos.
Especialistas recomendam verificar o extrato e a fatura do cartão pelo menos uma vez por semana, sem esperar o fechamento da fatura. Essa prática permite identificar cobranças suspeitas rapidamente. Muitas instituições financeiras oferecem notificações em tempo real para cada transação realizada — ativar esse recurso é essencial, pois permite identificar imediatamente qualquer compra não autorizada.
Monitoramento constante: a vigilância que protege
A prevenção mais eficaz contra fraudes financeiras é o acompanhamento ativo das movimentações bancárias. Dados da Febraban indicam que 62% dos consumidores abandonam carrinhos de compras online por preocupações com segurança, o que mostra a crescente consciência sobre proteção digital. Mas essa preocupação precisa se estender ao monitoramento das próprias contas.
Verificar extratos diariamente, mesmo que brevemente, ajuda a identificar movimentações suspeitas antes que se tornem prejuízos maiores. Valores pequenos e inesperados podem ser testes que criminosos fazem antes de realizar transações maiores. Qualquer cobrança não reconhecida, por menor que seja, deve ser contestada imediatamente.
Os aplicativos bancários modernos oferecem recursos avançados de monitoramento, como relatórios detalhados de gastos por categoria, histórico de acessos à conta e até alertas de login de novos dispositivos. Explore essas funcionalidades e configure alertas personalizados para transações acima de determinado valor ou realizadas fora do horário habitual.
Medidas extras de proteção no smartphone
O celular se tornou o principal meio de acesso a serviços bancários digitais, e proteger o dispositivo é tão importante quanto proteger as contas em si. A primeira linha de defesa é sempre manter o sistema operacional e os aplicativos atualizados. Atualizações frequentemente corrigem vulnerabilidades de segurança que poderiam ser exploradas por criminosos.
Evite instalar aplicativos de fontes desconhecidas ou lojas não oficiais. Malwares disfarçados de apps legítimos podem roubar informações bancárias, interceptar códigos de autenticação e até controlar remotamente o dispositivo. Baixe aplicativos bancários exclusivamente das lojas oficiais (Google Play Store ou App Store da Apple) e sempre verifique se o desenvolvedor é realmente a instituição financeira.
Habilite bloqueio de tela com senha forte, PIN complexo ou biometria. Parece básico, mas muitas pessoas ainda deixam o celular sem nenhum tipo de proteção. Em caso de perda ou roubo do aparelho, essa é a primeira barreira que impede acessos não autorizados. Para aumentar ainda mais a segurança, ative a função de bloqueio remoto e localização do dispositivo.
Banco Central intensifica fiscalização
Diante do aumento alarmante de fraudes, o Banco Central brasileiro implementou em 2025 um conjunto robusto de medidas para proteger o sistema financeiro. A Resolução BCB nº 496 antecipou prazos para regularização de instituições de pagamento e estabeleceu critérios mais rígidos de governança e segurança.
Uma das mudanças mais significativas foi o encerramento compulsório das chamadas "contas-bolsão", utilizadas por criminosos para ocultar a origem de recursos ilícitos. A partir de dezembro de 2025, bancos e fintechs terão obrigação de identificar e encerrar contas irregulares que não atendam aos critérios de rastreabilidade exigidos pela autoridade monetária.
A fiscalização também foi intensificada após uma série de ataques hacker que resultaram em prejuízos estimados em R$ 1,5 bilhão nos últimos meses. O BC passou a exigir comunicação imediata de incidentes de segurança, bloqueio automático de transações suspeitas e implementação de múltiplas camadas de autenticação nas plataformas bancárias.
Caio Rocha, diretor de Autenticação e Prevenção à Fraude da Serasa Experian, ressalta que "o setor de Bancos e Cartões segue sendo o epicentro das fraudes digitais no Brasil, com volume e sofisticação cada vez maiores por parte dos golpistas. Investir em tecnologias que detectam comportamentos suspeitos em tempo real é essencial para proteger milhões de transações financeiras".
Sinais de alerta: quando desconfiar
Reconhecer tentativas de golpe antes que causem dano é fundamental. Alguns sinais de alerta merecem atenção redobrada: mensagens de texto ou e-mails solicitando atualização de dados cadastrais, ligações de supostos atendentes bancários pedindo senhas ou códigos de segurança, links recebidos por WhatsApp prometendo benefícios ou resgate de valores, e notificações de compras ou transações que você não realizou.
O phishing, prática na qual criminosos se passam por instituições legítimas para capturar dados pessoais, atingiu 1,5 milhão de casos apenas no primeiro semestre de 2025. Esses ataques ficaram cada vez mais sofisticados, com e-mails e mensagens que copiam perfeitamente o visual e a linguagem de bancos reais.
A regra fundamental é nunca clicar em links recebidos por mensagem ou e-mail, mesmo que pareçam legítimos. Sempre acesse os serviços bancários digitando o endereço oficial do banco no navegador ou usando o aplicativo oficial. Em caso de dúvida sobre qualquer comunicação supostamente vinda do banco, entre em contato diretamente com a central de atendimento usando os telefones oficiais divulgados no site da instituição.
O que fazer se sua conta for invadida
Descobrir que a conta foi invadida exige ação imediata. O primeiro passo é entrar em contato com o banco através dos canais oficiais de atendimento e solicitar o bloqueio temporário de todas as funcionalidades da conta. Informe que houve acesso não autorizado e peça a suspensão de cartões vinculados.
Altere imediatamente todas as senhas relacionadas à conta bancária, incluindo senha de acesso ao aplicativo, senha de transações e senha do e-mail vinculado à conta. Se possível, faça essas alterações de um dispositivo diferente daquele que pode ter sido comprometido.
Registre um boletim de ocorrência na delegacia ou pela internet, através do site da polícia civil do seu estado. Esse documento será importante para comprovar a fraude junto ao banco e também pode auxiliar investigações policiais que identifiquem os responsáveis.
Solicite ao banco um relatório detalhado de todas as transações não autorizadas e formalize por escrito a contestação de cada uma delas. Bancos têm prazo legal para analisar contestações e devem realizar o estorno quando comprovada a fraude. Guarde toda a documentação e registros de protocolos de atendimento.
Educação financeira digital: prevenção que vale ouro
O cenário de fraudes financeiras digitais seguirá desafiador em 2025 e nos próximos anos. Projeções da ACI Worldwide e GlobalData estimam que os prejuízos com golpes podem chegar a R$ 11 bilhões anuais até 2028. Mas a boa notícia é que usuários bem informados e que adotam medidas básicas de segurança conseguem reduzir drasticamente seus riscos.
A combinação de autenticação em dois fatores, monitoramento constante das movimentações, desconfiança de mensagens suspeitas e uso de senhas fortes cria múltiplas camadas de proteção que dificultam enormemente a ação de criminosos. Segundo dados do Banco Central, investimentos em tecnologias de segurança por parte das instituições financeiras ajudaram a evitar que mais de R$ 70 bilhões caíssem nas mãos de golpistas em 2025.
O futuro da segurança bancária passa pela integração cada vez maior de inteligência artificial para detectar padrões suspeitos, biometria comportamental que identifica ações fora do normal do usuário, e sistemas de análise em tempo real capazes de bloquear transações fraudulentas antes mesmo que sejam concluídas. Mas a tecnologia mais sofisticada do mundo não substitui a vigilância e o bom senso de cada usuário.
Proteger contas bancárias e aplicativos financeiros não é paranoia — é necessidade. Em um país onde quase metade dos crimes financeiros são digitais e onde surgem novas modalidades de golpe a cada semana, a educação digital e a adoção de boas práticas de segurança deixaram de ser opcionais. São, na verdade, o investimento mais importante que cada pessoa pode fazer para proteger seu patrimônio no ambiente digital.