16 milhões de brasileiros já possuem Bitcoin — Saiba como começar
Mercado brasileiro de criptomoedas atinge 16 milhões de usuários. Entenda como funcionam exchanges, carteiras digitais e estratégias para investir.
Em um cenário onde mais brasileiros negociam criptoativos do que investem na bolsa de valores, o mercado de moedas digitais consolida sua presença no país. Dados recentes da Chainalysis apontam que aproximadamente 16 milhões de brasileiros já possuem algum tipo de criptomoeda, colocando o Brasil na décima posição global de adoção desses ativos. A transformação é ainda mais expressiva quando se observa que o país representa 9% do volume global de transações on-chain, liderando a América Latina nesse segmento.
O crescimento institucional acompanha esse movimento. Grandes bancos e corretoras passaram a oferecer produtos relacionados a ativos digitais, enquanto a regulamentação avança para trazer mais segurança ao mercado. Em novembro de 2025, o Banco Central estabeleceu novas regras para o mercado de criptoativos, inserindo as negociações com ativos virtuais dentro do mercado regulado brasileiro. A medida visa conferir maior eficiência e segurança jurídica às operações, além de reduzir o espaço para golpes e lavagem de dinheiro.

Como funcionam as exchanges de criptomoedas
As exchanges — ou corretoras de criptomoedas — são plataformas especializadas que conectam compradores e vendedores de ativos digitais. No Brasil, diversas opções atendem desde investidores iniciantes até operadores mais experientes. Entre as principais estão Mercado Bitcoin, Binance, OKX, Coinext e Mynt, cada uma com características específicas.
O Mercado Bitcoin opera desde 2013 de forma ininterrupta, sendo a exchange mais antiga do país e parte do grupo 2TM, que controla a fintech MB Pay, uma instituição de pagamento autorizada pelo Banco Central. A plataforma mantém a maior parte dos ativos dos clientes em dispositivos sem conexão com a internet, conhecidos como cold wallets, trabalhando com segregação de patrimônio.
A Mynt, plataforma de criptoativos do BTG Pactual, traz a confiança de um grande banco para o ambiente cripto. Voltada para iniciantes, foca em simplicidade, conteúdo educativo e segurança bancária, oferecendo suporte 24 horas. Já a Binance é reconhecida globalmente por sua ampla variedade de criptomoedas e ferramentas avançadas de negociação.
Para quem está começando, recomenda-se escolher exchanges brasileiras regulamentadas, que oferecem suporte em português e cumprem as exigências da legislação local. É fundamental verificar se a plataforma possui registro junto ao Banco Central antes de realizar qualquer investimento.
Primeiros passos para investir em Bitcoin e outras criptomoedas
Investir em criptomoedas exige planejamento e conhecimento dos riscos envolvidos. O primeiro passo consiste em definir objetivos claros. Alguns investidores buscam diversificação de portfólio, enquanto outros apostam no potencial de crescimento exponencial das tecnologias blockchain. Uma pesquisa da YouGov indica que 14,7% dos entrevistados no Brasil cogitam trocar suas contas bancárias tradicionais por criptomoedas.
Após escolher uma exchange confiável, o processo de abertura de conta envolve criar uma senha forte e ativar a autenticação de dois fatores. Especialistas recomendam começar com quantias menores até familiarizar-se com o funcionamento do mercado. Para iniciantes, Bitcoin e Ethereum são consideradas as opções mais seguras devido à sua consolidação e liquidez.
Fabrício Tota, diretor de Novos Negócios do Mercado Bitcoin, explica que "o investidor brasileiro tem se machucado nos últimos anos e meses, e o bitcoin é uma opção para investir em algo que não está exposto ao real". No entanto, ele alerta sobre a volatilidade: "definitivamente, não é tarde para investir. Mas você deve fazer uma alocação gigante agora? É um ativo volátil, que subiu bastante, então um recuo no curto prazo não seria uma surpresa".
Estratégias de investimento: holding versus trading
Existem duas estratégias principais para lidar com investimentos em criptomoedas. O holding significa comprar ativos e mantê-los pensando em ganhos a longo prazo, apostando na valorização futura. Essa abordagem é recomendada para quem não tem tempo de monitorar o mercado constantemente e deseja evitar oscilações de curto prazo. Especialistas sugerem manter investimentos em Bitcoin por períodos superiores a cinco anos.
O trading, por outro lado, envolve comprar e vender criptomoedas com maior frequência, buscando lucrar com as variações de preço. Essa estratégia exige acompanhamento diário do mercado, conhecimento técnico e maior tolerância ao risco. Para iniciantes, o holding costuma ser mais apropriado.
Diego Kolling, head da Bipa Premium, avalia que o peso dos criptoativos na carteira depende do nível de compreensão do investidor. Para perfis conservadores com pouco conhecimento sobre o mercado cripto, recomenda-se alocar até 15% dos recursos em criptomoedas. Investidores arrojados podem alocar 45%, enquanto especialistas entusiastas do mercado podem ter aproximadamente 65% em ativos digitais.
Segurança: carteiras digitais e proteção dos ativos
A segurança no armazenamento de criptomoedas divide-se principalmente entre dois tipos de carteiras: hot wallets e cold wallets. As hot wallets são carteiras conectadas à internet, podendo ser aplicativos para celular, extensões de navegador ou plataformas online. Sua principal vantagem está na facilidade de uso, permitindo transações rápidas e práticas.
Exemplos populares incluem MetaMask, Trust Wallet e Phantom. Essas carteiras são gratuitas e oferecem recursos de segurança como criptografia e autenticação de dois fatores. No entanto, por estarem sempre conectadas, são mais vulneráveis a ataques cibernéticos e phishing.
As cold wallets armazenam chaves privadas offline, oferecendo maior segurança ao manter os ativos longe de ameaças online. Dispositivos físicos como Ledger Nano X, Trezor Model T e KeepKey funcionam conectando-se temporariamente ao computador apenas para assinar transações. Embora exijam investimento inicial — os preços variam conforme o modelo — são recomendadas para quem pretende armazenar grandes quantidades por longos períodos.
Uma estratégia comum consiste em dividir os ativos entre ambos os tipos: manter a maior parte em cold wallet para segurança de longo prazo e uma quantia menor em hot wallet para movimentações frequentes. Independentemente da escolha, jamais compartilhe suas chaves privadas ou senhas com terceiros, pois serviços legítimos nunca solicitarão essas informações.
Principais golpes e como evitá-los
O aumento dos investimentos em criptomoedas vem acompanhado de uma preocupante escalada de fraudes. Segundo relatório da Comissão de Valores Mobiliários, 43,3% das vítimas de fraudes financeiras no Brasil relataram envolvimento com criptoativos. Os golpes em criptomoedas aumentaram 40,7% nos últimos anos, alcançando cifras bilionárias.
As pirâmides financeiras representam um dos golpes mais comuns. Funcionam prometendo ganhos rápidos através do recrutamento de novos participantes. O esquema só se mantém enquanto houver fluxo constante de novos investidores, mas inevitavelmente entra em colapso, deixando a maioria com perdas significativas.
As ofertas de criptomoedas inovadoras prometem acesso antecipado a moedas que ainda nem foram lançadas no mercado. Golpistas levantam fundos de investidores, mas nunca desenvolvem o projeto prometido ou simplesmente desaparecem com o dinheiro, deixando tokens sem valor.
Corretoras falsas imitam plataformas legítimas, criando sites convincentes onde as pessoas fazem operações acreditando estar em exchanges verdadeiras. Os valores transferidos caem diretamente nas mãos dos criminosos. Para evitar esse golpe, verifique sempre se a corretora possui registro na Comissão de Valores Mobiliários e no Banco Central.
O golpe romântico mistura técnicas de fraudes amorosas com promessas de investimento. Criminosos usam aplicativos de encontros e redes sociais para buscar vítimas, estabelecem relacionamentos virtuais e posteriormente alegam ter conhecimento em negociação de criptomoedas, prometendo lucros significativos. A vítima é instruída a enviar grandes volumes para carteiras gerenciadas pelos fraudadores.
Tasso Lago, especialista em criptomoedas e fundador da Financial Move, explica que investir em criptomoeda é seguro: "é totalmente seguro. O que acontece é que, por as pessoas não terem informação, elas acabam caindo em golpes de promessas de dinheiro fácil, de retorno sempre positivo. Promessas de rentabilidade positiva, de dobrar o capital rápido, isso tudo é fraude".
Sinais de alerta e medidas preventivas
Identificar golpes exige atenção a padrões específicos. Desconfie de promessas de lucros garantidos, pois no volátil mercado de criptomoedas ninguém pode garantir retornos fixos ou extraordinariamente altos. Rentabilidades acima de 10% ao mês com risco zero são sinais claros de fraude.
A pressão para investir rapidamente também caracteriza golpes. Criminosos criam sensação de urgência para forçar decisões impulsivas, impedindo que a vítima pesquise adequadamente. Além disso, fique atento à transparência: projetos ou plataformas que não fornecem informações claras sobre equipe, tecnologia ou modelo de negócios devem levantar suspeitas.
Outra recomendação importante envolve verificar o registro da empresa. Todas as instituições que operam com criptoativos no Brasil devem estar registradas junto ao Banco Central. A ausência desse registro constitui forte indício de irregularidade. Também evite compartilhar informações pessoais, chaves privadas ou senhas, pois serviços legítimos nunca solicitarão esses dados.
Caso você seja vítima de golpe, aja rapidamente. Registre boletim de ocorrência, reúna provas como conversas, comprovantes de depósitos e endereços das carteiras envolvidas. Denuncie ao COAF através do site do Ministério da Justiça e procure orientação jurídica especializada. Embora a recuperação de valores não seja garantida, as chances aumentam com ação rápida e documentação completa.
Perspectivas para o mercado em 2025
O cenário para criptomoedas em 2025 apresenta-se promissor. O Bitcoin ultrapassou os US$ 2 trilhões em valor de mercado no início de dezembro de 2024, entrando para um grupo seleto de ativos. A Bernstein Research prevê que o Bitcoin pode atingir US$ 200 mil até o final de 2025, impulsionado pela crescente adoção institucional e pelos aproximadamente US$ 60 bilhões em ETFs regulados.
O Digital Coin Price sugere um preço médio de US$ 210.644 para o Bitcoin em 2025, com picos que podem chegar a US$ 230.617. Essas previsões otimistas refletem a crença no potencial de crescimento de longo prazo, impulsionado pela integração cada vez maior nos sistemas financeiros tradicionais.
Paula Zogbi, gerente de pesquisa do Mercado Bitcoin, avalia que "nossa visão é que o próximo ano é promissor para aumentar a adoção de criptoativos, considerando esses avanços e outros que ainda estão por vir, o que tende a sustentar novos recordes". O Ethereum também mantém expectativas positivas, permanecendo como uma das maiores e mais ativas redes do mundo para criação de aplicações descentralizadas e contratos inteligentes.
Além do Bitcoin e Ethereum, investidores podem voltar suas atenções para outras criptomoedas que ficaram atrás na valorização de 2024. Narrativas que associam inteligência artificial ao blockchain e soluções de finanças descentralizadas devem ganhar destaque. O movimento de queda de juros nos Estados Unidos pode aumentar a liquidez em ativos de maior risco, beneficiando o mercado cripto como um todo.
Tributação e declaração de criptomoedas
Investidores em criptomoedas precisam estar atentos às obrigações fiscais. Operações que movimentem mais de R$ 35 mil no mês estão sujeitas à tributação de 15% sobre os ganhos. Para exchanges brasileiras, a própria corretora é responsável pela declaração mensal. Já para plataformas estrangeiras, existe a Instrução Normativa RFB 1888/2019, que obriga investidores com operações acima de R$ 30 mil mensais a fazerem declaração própria.
Na declaração anual do Imposto de Renda, as criptomoedas devem ser informadas na ficha de Bens e Direitos, pelo valor de aquisição. Os ganhos obtidos com a venda devem ser declarados separadamente. É fundamental manter registro detalhado de todas as operações, incluindo datas, valores e taxas envolvidas.
Em novembro de 2025, a Câmara dos Deputados derrubou a Medida Provisória nº 1.303/2025, que tentava cobrar 17,5% de Imposto de Renda sobre criptoativos e eliminar o limite de isenção de R$ 35 mil. Com isso, as regras anteriores permanecem em vigor, mantendo a tributação atual para o mercado de criptomoedas no país.