Como investir em empresas sustentáveis e ganhar dinheiro

Mercado de fundos sustentáveis explode no país com rentabilidade superior aos investimentos convencionais em mais da metade dos casos.

Publicado em 26/11/2025 por Rodrigo Duarte.

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O mercado brasileiro de investimentos sustentáveis registrou expansão recorde em 2025, com o patrimônio líquido dos fundos ESG atingindo R$ 36,8 bilhões em julho, segundo dados da Anbima compilados pela XP Investimentos. O salto de 48,4% desde dezembro de 2024 comprova que critérios ambientais, sociais e de governança corporativa deixaram de ser apenas uma tendência de nicho para se consolidar como estratégia concreta de alocação de capital no país.

A sigla ESG vem do inglês Environmental, Social and Governance e representa um conjunto de parâmetros usados para avaliar empresas muito além do desempenho financeiro. Na prática, analistas observam como as companhias lidam com questões climáticas, gestão de resíduos, consumo de energia, direitos trabalhistas, diversidade nos conselhos administrativos e transparência nas demonstrações contábeis.

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De acordo com levantamento da Precedence Research, o mercado global de investimentos ESG deve alcançar US$ 167,49 trilhões até 2034, com taxa de crescimento anual composta de 18,82%. No Brasil, esse movimento se intensifica com a proximidade da COP30, que será realizada em Belém em 2025, posicionando o país como destaque no debate sobre financiamento climático.

Como investir em empresas sustentáveis e ganhar dinheiro
Créditos: Redação

Como funcionam os investimentos ESG

Ao contrário do que muitos imaginam, aplicar em ativos sustentáveis não significa abrir mão de rentabilidade. Pesquisa da Escola de Negócios Leonard Stern da Universidade de Nova York analisou mais de mil estudos comparativos publicados entre 2015 e 2020 e revelou que, em 59% dos casos, investimentos ESG proporcionaram retorno igual ou superior ao benchmark convencional. Apenas 14% apresentaram desempenho inferior, enquanto 28% registraram resultados mistos.

O fundo Santander Ethical Ações Sustentabilidade, o mais longevo do segmento no Brasil iniciado em 2001, acumulou performance de 796,58% no período, segundo análise da Economática. O BB Ações ESG IS, criado em 2015, registrou valorização de 356,23%. Na janela de 24 meses até 2023, o destaque ficou com o SulAmérica Crédito ESG, com rentabilidade de 26,84%.

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"Investimento ESG é diferente de filantropia", ressalta Sylvia Coutinho, presidente do Grupo UBS no Brasil e head da área de Wealth Management do UBS para a América Latina. "Você alinha sua carteira de ativos com os seus valores, mas sem abrir mão da rentabilidade."

A resiliência desses fundos se explica pela natureza das empresas selecionadas. Companhias com boas práticas de governança e responsabilidade ambiental tendem a estar mais preparadas para enfrentar crises, mudanças regulatórias e pressões crescentes relacionadas à transição energética global.

Opções de investimento sustentável no mercado brasileiro

O investidor brasileiro conta hoje com 193 fundos ESG ativos, distribuídos entre renda fixa, ações e multimercados, de acordo com relatório do Itaú BBA. Desses, 127 são classificados como fundos IS (investimento sustentável), com compromisso formal com objetivos sustentáveis, enquanto 66 são ESG-related funds, que apenas consideram fatores ambientais e sociais no processo decisório.

A segmentação de renda fixa ganhou protagonismo em 2025, respondendo por 78% do patrimônio total dos fundos sustentáveis. O movimento reflete o cenário de juros elevados no país e a busca por produtos que combinem segurança com impacto positivo. Já os fundos de ações ESG encolheram para 17% da carteira, totalizando R$ 5,6 bilhões.

Fundos de investimento

Os fundos ESG funcionam como condomínios onde vários cotistas aplicam recursos de forma coletiva sob coordenação de gestores especializados. A diferença está na seleção criteriosa de ativos alinhados aos princípios de sustentabilidade. O Trend ESG Global e o Trend ESG Global Dólar FIM, da família XP Trend, oferecem exposição a mais de 1.100 ações de empresas internacionais com elevado nível de práticas ESG. A aplicação inicial varia conforme o fundo, com opções a partir de R$ 500.

Debêntures incentivadas e green bonds

As debêntures verdes representam títulos de renda fixa emitidos para captar recursos destinados a projetos de infraestrutura sustentável. Quando classificadas como incentivadas, oferecem isenção de Imposto de Renda para pessoas físicas, tornando-se alternativa atrativa para quem busca proteção fiscal aliada a impacto ambiental.

Em setembro de 2024, a Sabesp lançou a segunda emissão de blue bonds do país, no valor de R$ 2,5 bilhões, direcionada especificamente para projetos de saneamento e proteção de recursos hídricos. A emissão seguiu os Green Bond Principles, com certificação de organismos internacionais que atestam a destinação adequada dos recursos.

De acordo com Ricardo Assumpção, sócio líder de Sustentabilidade e CSO Latam da EY, o apelo desses títulos vai além da rentabilidade imediata. "Existe um trade-off entre crescimento de longo prazo ou resultado de curto prazo. A resposta para isso é sustentabilidade", afirma.

ETFs e certificados

Os fundos de índice (ETFs) com viés sustentável permitem exposição diversificada a partir de valores acessíveis. Há opções a partir de R$ 10 que replicam índices como o ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial) da B3 ou o S&P/B3 Brasil ESG. Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) lastreados em construções sustentáveis e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) voltados para agricultura regenerativa também fazem parte do cardápio disponível, com aplicações mínimas a partir de R$ 50.

Setores com maior potencial no Brasil

O Brasil se destaca globalmente pela abundância de recursos naturais e matriz energética predominantemente renovável. Projetos de energia solar fotovoltaica no país demonstram taxas internas de retorno (TIR) de até 23,63% descontada a inflação, superando significativamente a média global, segundo levantamento da Auíri.

Três setores concentram as principais oportunidades de investimento sustentável no território nacional. A energia renovável lidera, impulsionada pela expansão de parques eólicos e solares nas regiões Nordeste e Sul. O saneamento básico ganhou tração após o novo marco legal aprovado em 2020, abrindo espaço para investimentos privados em infraestrutura de água e esgoto. A agricultura sustentável completa o trio, com demanda crescente por práticas que protejam o meio ambiente e promovam segurança alimentar.

A chegada da COP30 em Belém posiciona o Brasil estrategicamente para atrair capital estrangeiro voltado para projetos de descarbonização. O Programa Eco Invest Brasil, lançado pelo Tesouro Nacional em 2024, oferece linha de crédito para hedge cambial de longo prazo, reduzindo um dos principais entraves históricos para investimentos estrangeiros em iniciativas sustentáveis.

Como avaliar se um fundo é genuinamente ESG

O crescimento acelerado do mercado trouxe o desafio do greenwashing, prática em que empresas ou fundos se apresentam como sustentáveis sem adotar mudanças efetivas. João Kepler, CEO da Equity Group, explica que a transparência diferencia um ativo verde legítimo. "Projetos ambientais auditados, com metas mensuráveis e relatórios claros são fundamentais", afirma.

Carlos Braga Monteiro, CEO do Grupo Studio, reforça a importância da rastreabilidade. "Ativos realmente verdes contam com auditorias independentes, relatórios de impacto e critérios objetivos vinculados a princípios como os Green Bond Principles ou à taxonomia verde nacional", destaca.

O investidor deve verificar se o fundo ou título possui certificação de organismos reconhecidos, como a Climate Bonds Initiative (CBI) ou a International Capital Market Association (ICMA). A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) publicou em 2024 a Resolução CVM 218, que aprova o Pronunciamento Técnico CBPS 02 sobre divulgações relacionadas ao clima, alinhado às normas internacionais IFRS S2.

Luzia Amaral, head ESG da Santander Asset Management, recomenda buscar segunda opinião externa antes de investir. "Uma análise de uma parte externa tem como objetivo identificar o alinhamento e propor correções necessárias, se for o caso, antes da emissão ir a mercado", explica. Além disso, é fundamental avaliar o risco de crédito do emissor e identificar ratings externos disponíveis.

Desafios e perspectivas para 2025

Apesar do crescimento expressivo, o Brasil ainda enfrenta obstáculos para consolidar o mercado ESG. Um dos principais é a falta de padronização na medição e divulgação de critérios sustentáveis. Diferentes gestores utilizam metodologias variadas, dificultando a comparação entre fundos e a tomada de decisão informada.

A implementação da taxonomia sustentável brasileira, cuja consulta pública se encerrou em março de 2024, pode trazer maior clareza ao definir e classificar atividades econômicas alinhadas com objetivos de sustentabilidade. A ferramenta promete promover transparência sobre práticas empresariais e facilitar a atração de investimentos voltados para a transformação ecológica.

Outro marco regulatório importante foi a publicação da Lei 15.042/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). O sistema estabelece limites para emissões de GEE e permite que as reduções se revertam em ativos financeiros negociáveis, abrindo novo mercado para investidores interessados em créditos de carbono.

Para 2025, especialistas projetam aceleração nos investimentos dedicados à transição para economia de baixo carbono. A XP Investimentos destaca cinco tendências principais: impulso da transição energética, avanço da inteligência artificial elevando demanda por energia limpa em data centers, monitoramento rigoroso de metas corporativas, preparativos brasileiros para sediar a COP30 e maior responsabilização de empresas pelos compromissos assumidos.

Primeiros passos para investir

Para quem deseja iniciar nesse mercado, a recomendação é começar com cautela e diversificação. Os fundos ESG representam porta de entrada mais acessível, oferecendo gestão profissional e carteira diversificada desde o primeiro investimento. É possível encontrar opções de investimentos inteligentes que equilibram retorno financeiro e impacto positivo.

O investidor deve estudar o regulamento do fundo, conferir os custos de administração e performance, verificar o histórico do gestor e entender a estratégia de seleção de ativos. Questões como composição da carteira, setores priorizados e metodologia de avaliação ESG precisam estar claras antes da aplicação.

Fabio Alperowitch, CFA da Fama Investimentos, alerta para a falsa dicotomia entre rentabilidade e responsabilidade socioambiental. "O processo ESG é uma jornada quase que sem fim", afirma. Para gestores responsáveis por fundos ESG, o foco deve estar no longo prazo, com empresas genuinamente comprometidas com transformações estruturais.

Eid, superintendente do Itaú, reforça o papel do investidor consciente. "As pessoas precisam entender o poder que elas têm com o dinheiro. Tem que questionar o assessor e o gestor: o que essa empresa faz? Quais são os projetos? Pergunta sobre os fundos ESG", orienta.

O número de cotistas em fundos sustentáveis saltou de 380 há dez anos para 42 mil atualmente, segundo a Economática. O crescimento demonstra amadurecimento do mercado e conscientização crescente sobre a importância de alinhar valores pessoais às decisões de investimento. Com o Brasil se posicionando estrategicamente para a COP30 e novos marcos regulatórios entrando em vigor, 2025 se desenha como ano decisivo para a consolidação dos investimentos ESG como alternativa viável e rentável no portfólio do investidor brasileiro.

ESCRITO POR: Rodrigo Duarte - Jornalista formado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), com especialização em Marketing Digital.